Após a regata

Depois que tive que me deparar com todos os meus fantasma na última regata, fiquei de “bobeira”e não quis ir remar. Disse que estava cansada e que o tempo estava ruim, ainda tinha que lidar com aquela situação de ter perdido e ter que lidar com isso. Na minha cabeça, eu tinha que resolver uma coisa de cada vez. Primeiro, eu teria que processar a questão de ganhar ou perder no contexto da minha existência. Eu sei, todo mundo tem esse processo e é natural da raça humana, mas eu percebi que isso me fazia muito mal. Enfim… estava de bobeira, processando processos (afff!!!) inerentes a minha pessoa e não estava nem um pouco a fim de ir ao remo. Na verdade, não fiz atividade física nenhuma e o nível de endorfina estava negativo no meu corpo.

Nossa! A semana foi horrorosa. Mau humor, depressão, falta de vontade de fazer nada! Eu só queria dormir! É notório que essa falta de endorfina é, de fato, uma das grandes responsáveis pelo nosso mau humor. Claro que falta de dinheiro no banco, emprego ruim e uma série de outros fatores também, mas acredito que a maioria das pessoas que estão lendo esse post já teve uma experiência de bem-estar após uma atividade física. Não tem como negar que a sensação é maravilhosa, mas com o remo essa sensação é maior e melhor do que outras atividades físicas. Não sei explicar o porquê, mas tenho a teoria de que a atividade sendo feita na água e ao ar livre dá uma sensação de liberdade e potência, mas isso é somente um devaneio meu.

Depois de passar praticamente a semana sem ir remar, decidi acordar cedo no sábado para remar. Na noite anterior conversei comigo mesma e disse: “amanhã não terá desculpa, vai ter que voltar a remar, pois você precisa melhor esse humor”. Muito bem, no sábado acordei às 6 horas da manhã e o tempo estava muito ruim, mas não parecia que iria chover. Me arrumei, tomei um iogurte e fuuuiii!

Chagando lá, algumas pessoas do master já estavam se preparando remar no 8 COM, pois haverá regata em novembro e eles já estão treinando. Percebi que não havia mais ninguém e já estava vendo que eu iria voltar para casa sem remar. De repente apareçam três pessoas e fomos remar no four skiff para minha alegria, pois o four skiff, na minha opinião é um dos melhores barcos para se remar.

Começamos a remar e eu estava meio “desconectada” e já no início estava errando horrores. Afinal, eu estou num processo de aprendizagem e ainda falta muuuuito para aprender a remar de verdade. Claro que eu ainda me sinto muito insegura para remar no master, mas a oportunidade que eu tenho de aprender é enorme e mais uma, isso se configurou neste sábado. Uma das pessoas que estava remando com a gente, teve toda a boa vontade de corrigir, auxiliar e orientar. As pessoas que estavam no barco só queriam remar e não estavam se importando em ter que ensinar. Foi tão gratificante aquele, pois o importante para as pessoas que estavam ali era somente remar.

Além de ter tido essa experiência, pois para mim, cada dia que vou remar é uma experiência única, a chuva veio nos presentear. Digo que foi um presente, pois estava calor e choveu um pouco e foi muito gostoso. Nesse dia, voltei para casa com a sensação de ter remado, estava bem, feliz e com a endorfina a todo vapor!

Momento de reflexão

Cada dia mais eu sou apaixonada pelo remo, mas não só por ser uma atividade física, mas como algo que eu faço e que a cada dia aprendo um pouco mai s sobre mim. Eu não sei como isso acontece e pode ser uma “viagem” total da minha cabeça. Misticamente falando, posso relacionar com o contato com a natureza, nascer do sol e “n” outros elementos, mas acho que só experimentando.

As oportunidades que tenho tido de auto conhecimento nesse tempo que pratico esse esporte, realmente, são muito ricas. Algumas eu relato nesse blog, outras ficam mesmo só como o momento vivido.

Durante o mês de setembro tive um aprendizado realmente grande em relação as determinados aspectos da minha pessoa que eu só pude enxergar mediante a situações que aconteceram no remo. Passei 20 anos com um determinado padrão e bastou uma determinada situação acontecer para “desperteasse” sobre isso.

Quando fazemos algo de coração, algo que de fato queremos e gostamos muito sem nos preocupar em sermos melhor ou pior, isso parece encher nosso espírito de alegria. Agora, escrevendo, lembro do amanhecer da Lagoa

, as pessoas chegando para remar, o gatinho Rafael fazendo as “loucuras”, entrando na Lagoa com o o sol nascendo, neste momento que eu escrevo isso, eu fico com uma sensação tão boa. E depois disso tudo, ainda poder bater papo com as pessoas queridas sobre “qualquer coisa” é uma experiência que eu desejo para qualquer pessoa.

A segunda regata – o aprendizado

Mais uma vez houve nova edição da Regata do Futuro e eu decidi participar, afinal já tinha passado por esse processo e vivenciado a questão da competitividade, mas não era bem assim.

Eu estava no clube novo treinando com a equipe do master e não estava preocupada em ganhar ou perder. Estava somente preocupada em remar e aperfeiçoar, cada vez mais, a minha técnica que era bem fraquinha.

Como eu estava no processo de clube novo ainda não estava sabendo direito como as coisas estavam funcionando, mas comecei a treinar com o meu técnico e fiquei num processo onde eu não era da escolinha e nem da pré equipe. Mas estava treinando focada na regata e em melhorar tempo, performance e tudo mais. O que eu estava esquecendo é que o que eu gostava era remar.

Foram três semanas de treino para a regata e percebia que eu não estava muito confortável nos treinos. Achava que o nível de competitividade estava alto e eu estava me identificando com aquilo e, com isso, entrei novamente no processo de ser competitiva, me cobrar, querer ganhar e ponto final. Eu estava obstinada a treinar o máximo, ficar com a mão machucada e continuar treinando. O curioso é que eu não estava saindo do treinando com aquela sensação de felicidade , eu só estava saindo com aquela cobrança de que eu não estava indo bem e isso, estava completamente afastada do conceito que o remo tem para mim, ou seja, o importante não era remar e sim, competir e ganhar.

A semana que antecedeu a regata foi, de fato, um terror! Cobrança, treino, tensão. Dois dias antes da regata, eu fiz um treino muito ruim e conversei com o meu técnico dizendo a ele que não estava achando que eu estivesse remando bem para a regata, pois nesse dia fiz um treino que dava medo de tão mal que eu remei. Ele me explicou que eu deveria agir de determinada forma e falou também, sobre a questão de atitude. Disse que as remadas finais precisam ser feitas com atitude. Você poderia estar morrendo, mas essas remadas tinham que ser as mais fortes.

Passei o dia inteiro pensando nessa questão da atitude. Comecei a ficar fazendo uma retrospectiva da minha vida e verificando se faltou ou faltava atitude em alguns momentos da minha vida. A palavra atitude virou tema de auto conhecimento e auto análise naquele dia. Fiquei pensando se em alguns momentos que não consegui o “primeiro lugar”foi por falta de atitude. Cheguei a pensar no momento que tive que fazer o tratamento para o câncer que consistia em tomar comprimidos de iodo radioativo e ficar trancada num quarto por dois dias, mas durante esses dois dias o objetivo era beber bastante água para eliminar ao máximo a quantidade de iodo radioativo do meu organismo e eu fiz isso tudo com uma determinação que ao final do processo, consegui reduzir ao máximo a quantidade de iodo no meu organismo. Achei que ter conseguido isso foi por obstinação e atitude. Consegui identificar, na minha cabeça, algum momento que eu tive atitude, mas meu marido disse que não era essa a relação e, talvez, ele tivesse razão.

Na véspera da regata, fiz um treino ótimo. Fiquei super feliz, pois o tempo foi bom e achei que tivesse tido atitude no final da regata. O que eu não consegui perceber é que eu estava completamente afastada do meu conceito do remo onde o importante era remar. Eu estava completamente identificada com a competição e com o “importante é ganhar”.

No dia da regata, para variar, acordei as 5 horas da manhã e não consegui mais dormir e estava super tensa e nem um pouco confortável com todo o processo. Na verdade, estava repetindo o padrão que eu tive na outra regata, com uma pequena diferente na hora que eu entrei no barco e comecei a remar, não tive aquela sensação de euforia e não estava na pilha do “importante é remar” e isso fez toda a diferença para mim. Comecei pelo processo com os árbitros que, mais uma vez, resolveram falar de forma grosseira comigo e com todas as competidoras. Ahhh! Um detalhe bem importante: A Lagoa estava completamente virada e muito ruim de remar! Bem , independente disso, quando o árbitro deu a largada e começamos a competição eu tive certeza que eu estava em outra energia. Largada ruim, remo enforcando e remando completamente irregular, ou seja, eu remei mal. Depois de uma grande enforcada que eu dei, na verdade, percebi que não havia encontrado a atitude naquela prova. Na minha cabeça estava “o importante é ganhar” e me esqueci por completo do “importante é remar”. Eu teria tido atitude se eu tivesse nessa “vibe”.

Fiquei em terceiro lugar nessa regata e quando acabou eu fiquei com a sensação “o que foi que eu fiz? Eu fiz qualquer coisa, menos fazer o que eu mais gosto que é remar”. Veio aquele turbilhão do competidor perdedor. E se… e se eu tivesse agido assim…. E a questão é que eu não me importei com o que eu deveria ter me importado, que era remar, mas não remar no sentido de competir e sim, remar no sentido de remar porque gosta e acabou. Claro que a partir do momento que você participa de uma regata, você tem uma tendência a competir, mas eu já experimentei essa sensação de somente remar. Hoje, eu não remei de verdade, não remei com o meu desejo de remar.

O curioso é que, hoje, eu tive mais que certeza que eu gosto é de remar. Tenho tanta certeza que vou comprar um barco. É sempre bom a gente transitar por essas emoções para que tenhamos oportunidade de ter contato com determinados determinados sentimentos. Talvez, se eu tivesse ganho a regata, teria sido bom, mas não sei se teria feito contato com todo esse sentimento.

Além desse processo, foi muito bom estar com as pessoas do meu antigo clube e perceber que eles estavam participando da regata por diversão. Não havia rivalidade e sim, um clima de muita amizade e cooperação. Eu acredito que o esporte tenha que ter esse lado, a competição serve para que as pessoas tenham objetivo para superar os seus limites, mas também serve para que elas fiquem mais integradas. Acho tão bom que as pessoas possam ter esses momentos. Acredito muito que o remo possa propiciar tais momentos de muito integração e felicidade.

O novo processo

Depois de merecidas férias tiradas em agosto, voltei a remar em setembro. Havia um processo desconfortável para mim, pois o meu técnico havia mudado de clube em agosto e eu fiquei chateada com isso, pois queria que ele continuasse me treinando, pois ele de fato, é muito bom. Ao mesmo tempo já estava super enturmada com o pessoal que frenquentava o mesmo espaço que eu remava e, toda a vez que tenho que fazer mudanças no processo que eu já estava habituada e funcionando é um problema (acredito que para maioria das pessoas).

Meu técnico conseguiu que eu fosse remar com a equipe master no seu novo clube, até porque no antigo clube não daria para eu remar mais, pois a estrutura lá não estava tão boa, mas os meus amigos ainda estavam lá. Na verdade, o meu objetivo era conseguir remar num skiff, pois eu queria comprar um. Eu quero poder ter um skiff entrar na água e fazer meu treino e voltar feliz para casa e com a sensação de missão cumprida.

Comecei no novo clube no início de setembro para remar com a equipe master e, logo no primeiro dia, já entrei num duble. Eu mal conseguia entrar no barco e já comecei a ficar tensa. Mais uma vez o fantasma da cobrança aparecendo e eu tendo que lidar com isso. Fiquei super preocupada de fazer um m… e virar o barco com a pessoa que estava remando comigo. Confesso que esa primeira remada foi muito boa, pois demos a volta da Lagoa duas vezes, coisa que nunca tinha acontecido comigo. Saí da água com a sensação mais maravilhosa do mundo e super grata por aquela pessoa ter me proporcionado isso com a maior paciência do mundo. Isso é uma das coisas mais encantadoras do remo.

Nesse período que eu comecei no novo clube, estava passando movimentos de mudanças nas minha vida profissional que eram muito intensas e cada vez que eu ía remar eu percebia que eu ficava muito feliz e que eu queria aquilo para sempre para mim. Na verdade, eu queria que aquela sensação se tornasse padrão para a minha vida. Com isso, cada vez mais eu me fortaleci para tomar a decisão de mudar a questão do trabalho. Estava percebendo que passava todo o tempo que estava no trabalho triste, mas, pela manhã, quando ía remar, acessava uma felicidade que eu queria que estivesse comigo durante todo o dia. Vi que essa felicidade estava acontecendo pelo fato de eu estar fazendo algo que eu gostava muito, que era remar.

Durante duas semanas fiquei remando com a equipe do master. A cada dia experimentava um barco diferente. Nossa! Era um luxo! Oito com, duble, four skiff (o melhor que já remei). Claro que a cobrança comigo mesma em relação a não errar, ainda existia, mas era maravilhoso a cada remada.

Lembro que no dia que remei no four skiff foram 12km e eu pensei: “fu…” Só remava na raia da escolinha e agora, me via remando na raia da Lagoa e ainda por cima 12 km. Isso aconteceu num sábado e as pessoas que remavam comigo eram maravilhosas. Remavam bem demais! Esse foi um dos dias no remo que eu fiquei mais feliz. Eram muitas conquistas no sentido de remar em várias barcos aliada com a oportunidade de aprender com quem sabe.

O meu técnico estava treinando a pré equipe onde eu não meu encaixava, mas a equipe do master estava me ensinando muito. Era muit boa essa oportunidade de estar remando com eles.

A primeira regata

Sempre tive problemas com competição. Achava desnecessária a questão de ter que competir e eu sempre perguntava:”pra que competir, pessoal”. Até que durante essa minha nova fase do remo, onde eu estava, de fato, começando a aprender a remar, surgiu a oportunidade de participar da Regata do Futuro. Essa regata é destinada as pessoas que estão começando a aprender a remar e engloba um range grande de faixa etária, ou seja, todo mundo pode competir.

Decidi participar da Regata do Futuro, mas como no remo tudo é  muito maravilhoso, deixei de lado o trauma de competição que na verdade, eu entendo que começou na minha infância a partir de uma Olimpiada que tinha na minha escola unida a uma cobrança absurda em relação a minha pessoa. Resultado: uma pessoa que é competitiva traumatizada. Enfim, a questão era que eu não estava querendo lidar com a derrota (caso houvesse). Afinal, pessoas competitiva não sabem perder.

Deixando de lado todo o perfil psicológico da autora, comecei a treinar para a regata duas semanas antes da competição. O meu técnico, Maurinho, é uma pessoa maravilhosa e tem uma facilidade muito grande de ensinar as pessoas a remar.Era uma tensão que não acabava mais e ao mesmo tempo era prazeroso só pelo fato de estar remando e curtindo aquilo tudo, pois eu tenho uma identificação com o remo que eu não sei explicar e com isso, acabei deixando de lado essa parte competitiva durante os treinos. Afinal de contas, o importante era remar.

Véspera da competição: o treino tinha sido um horror e o de “dark side” veio completamente à tona: estava em pânico porque o lado competitivo havia tomado conta do meu ser e eu não queria mais participar da regata com medo de perder, pois na minha cabeça, eu não saberia lidar com aquilo. Fiquei completamente estressada e começava a me dar arrependimento em ter e metido nesse negócio de regata. Estava tudo indo tão bem e eu fiquei arrumando “sarna para me coçar”.

Dia da regata: acordei 5 horas da manhã e não conseguia mais dormir até porque tinha que estar na Lagoa as 7 horas. Tive dor de barriga e mal conseguia respirar direito. É curioso pensar que alguém consegue ficar num estado desses por conta de uma regata e, detalhe, você não é um atleta profissional e sua subsistência não depende daquilo. Mas o fato é que o ser humano é cheio de “craca” e tem um monte de coisa que faz com que a gente não se sinta bem. Neste momento, o meu lado competitivo estava gritando e toda hora o fantasminhas da competição vinham e falavam assim: “se você perder, a pessoas não vão achar legal. Vào falar que você é muito alta e que deveria ganhar, etc… Na verdade, o tempo todo eu estava preocupada com que o outro iria achar de toda a situação e estava esquecendo uma: o que importava era remar.

No momento de entrar no barco as pernas tremiam e eu pensava de uma forma bem derrotista: ” acho que não vou conseguir”. Sendo que no momento em que comecei a remar para aquecer, eu fui tomada por uma euforia que eu não sabia explicar da onde vinha. Já não estava importando a competição, se era para ganhar ou perder. Naquele momento, o que importava era remar. O alinhamento dos barcos antes da saída, mostrava o clima tenso das pessoas que estavam como juízes da prova, mas nem a maneira deles falarem, me incomodou.

Quando a partida foi dada, eu simplesmente não conseguia pensar e nem escutar nada. Eu só remava! Remei efusivamente e quando percebi, a prova já tinha acabado e eu havia ganhado a prova! Naquele momento, tanta coisa veio na minha cabeça, mas a principal foi que depois de ter tido um câncer, eu me permitir ao remo e também, a superação. O que eu pensava era: ” Eu estou viva e estou remando”! Claro, que a vitória ajudou muito a elevar meu astral, mas eu me permitir participar de uma regata, completei a prova e, de quebra, ainda ganhei! Eu estava “in heaven”!!!

A partir desse momento, o remo ganhou mais significado na minha vida. Eu comecei a perceber que ele não era somente um esporte. Na sua prática, era possível “trabalhar” questões pessoais importante, mas aliado a um contexto com a natureza, com o movimento, com o coletivo que é muito rico. Acredito que outros esportes também, proporcionem esse tipo de situação, mas o remo, na minha opinião pessoal, parece o mais completo. Independente de qualquer fator, o importante é remar!

 

 

O dia da água – Parte II

Já estava remando há uns 7 meses e estava me sentindo super segura de tudo, mas eu tinha um certo medo de cair na água, não porque eu não soubesse nadar, mas sim por um medo meu estranho que eu justificava em várias coisas, tais como: a água da Lagoa é suja ou meu pé vai ficar preso e como eu vou sair. Eu não estava entendo direito todo esse medo quando eu entrava no canoe. Eu já tinha mudado de estágio e já estava no canoe de madeira, que é um pouco mais instável que o canoe de fibra. Ainda demorava para eu ter confiança, eu estava sempre muito cautelosa (na verdade, medrosa). Enfim…

Num belo dia de sol, estava na minha última volta no circuito da escolinha e, de repente, meu remo “enforcou” (significa que eu fiz um m… grande com o remo) e então, o canoe de madeira virou em camera lenta e, é claro eu vierei junto, né! Quando meu dei conta, já estava na água e durante aqueles segundos barco-vira-água, a minha preocupação era meu pé tem que sair, só que ele não estava preso fazia tempo, ou seja, todo aquele medo, na verdade, não tinha relação com a situação de virar o barco e era somente um medo meu.

Depois que eu realizei que eu estava na água, veio outra sensação: a vergonha! Eu pensei: “Nossa! Que mico! Vou ter que chegar toda molhada e todo mundo vai ver que eu cai na água! Na verdade, ninguém estava preocupado com isso. Era tudo coisa da minha cabeça.

Eu tomei um banho lá no clube e enquanto estava voltando para casa, eu comecei a ser tomada por uma sensação de euforia completa. Eu comecei a pensar que de fato, eu estava ficando maluca e aquela situação não era para me deixar e sim, para acabar com o meu dia e foi a partir daí, que comecei a perceber que o remo não seria somente uma atividade física que reduziria meu colesterol , mas seria uma experiência diferenciada que me ajudaria em alguns aspectos da minha vida.

Primeira mudança

Eu estava super empolgada em ter começado a remar. Acordar cedo três vezes por semana era um prazer. Já estava me sentindo poderosa no canoe, indo para água e dando várias voltas no circuito da escola de remo. Um dia, estava remando sem dar aquela olhada básica para trás e de repente, bati no canoe do meu marido. Ele já ficava estressado com toda a movimentação de canoe, lancha e etc. e bastou eu bater no canoe que ele estava para que todo o glamour do remo acabasse para ele. Foi então, que tive a primeira baixa no remo. Fiquei triste, pois tinha toda a esperança que ele seria meu parceiro de duble. Afinal, uma das coisas que mais me atrai no remo é essa questão do coletivo e do movimento em conjunto. Esse momento me deixou um pouco desanimada, mas era difícil ficar completamente desanimada mediante a todos as coisas boas que existem em cada momento que você está remando, seja o movimento ou o visual.

O dia da água

Enfim, estávamos prontos para entrar na água. Claro, meu marido aprendeu a técnica no “barquinho imaginário” mais rápido do que eu e já estaria pronto para entrar na água muito antes, mas decidiu me esperar para que pudéssemos ter essa experiência juntos. Então, numa determinada semana o professor me liberou para entrar na água! Nossa! Que emoção!! Principalmente para entrar no barco! Até nesse quesito eu era ruim! Mas nada disso era importante, pois o que mais importava para mim era remar!

Após vencer todo o desafio de entrar no canoe, enfim, eu estava na água! Tive um crise de euforia que passara na mesma proporção que tive que começar a remar, algo que, inicialmente, não fluiu! Novamente, voltei a lembrar das aulas de Educação Física do primário onde os professores deveriam ter feito um trabalho maior comigo na parte de coordenação motora. De qualquer maneira, remar era preciso, então, comecei a me concentrar no movimento e o canoe começou a se movimentar, em qualquer direção, é claro! Isso já era um começo! Viva! O barco saiu da inércia!

Na aula seguinte, tudo de novo: entrar no barco, coordenar os movimentos e colocar o barco para “andar”. Já foi um pouco melhor até que eu já estava começando a coordenar e ter um resultado um pouquinho melhor!

Cada vez mais eu ficava estimulada a acordar cedo para remar. Às vezes, pensava que poderia ser a euforia da novidade, mas deixei o tempo se encarregar disso!

Estar ali, já na água, remando e em contato com toda energia do local estava sendo mais do que eu poderia imaginar. Eu estava começando a descobrir que estava deixando de ser somente uma atividade física, pois o contato com toda aquela energia da Lagoa e mais o processo do remo, era algo realmente gratificante e que me enchia de energia.

 

O início

Os anos se passaram e como a vida é uma caixinha de surpresas, em 2009 eu fiquei doente. Naquele momento todos os esforços eram concentrados na minha cura e eu não tinha planos. Quando tudo terminou, eu decidi fazer tudo que eu gostava e então, o remo deixou de ser “uma estrela de Hollywood” na minha vida e passou a ser uma pessoa comum e acessível.

Na verdade, eu comecei a perceber que o remo “era uma pessoa comum” quando descobri que uma amiga do meu trabalho estava remando na Lagoa. A minha reação foi de surpresa absoluta: “Nossa, Renatinha, você está remando na Lagoa? Como você conseguiu!?  Como funciona isso!?” Então, ela me deu todas as informações e optando pela mesma escola de remo que ela estava fazendo (eu nem sabia que existiam escolas de remo). Enfim, fiz a minha matrícula e a do meu marido. Escolhemos o horário das 5:30 da manhã, ou seja, você acordava e ainda era “ontem”, né!

Primeiro dia de aula e todos no “barquinho imaginário”. Para quem não sabe o “barquinho imaginário” é o famoso tanque com água que simula um barco como se estivesse dentro da água. Já no primeiro dia do “barquinho”, você acha que as aulas de Educação Física no primário não surtiram o menor efeito, pois o seu nível de coordenação é zero. Além disso, o número médio de aulas no “barquinho imaginário” é entre 4 e 5 aulas e eu fiquei, no mínimo, umas 10 aulas. Nada disso importava, pois o objetivo maior era entrar na água! Era claro que naquele momento, eu percebi que não tinha nenhum dom para o esporte, mas, pelo menos, tinha perseverança e isso foi fundamental.

A partir desse início eu comecei a ter uma visão diferenciado do remo. Não estava encarando aquela situação somente como esporte, tinha algo mais que eu ainda não havia descoberto.

Primeiro contato

Lembro bem da década de 90, quando eu estava passando férias na casa da minha tia em Florianópolis e o assunto que estava sendo comentado era que meu primo mais velho estava remando na Beira-Mar. Eu havia achado aquilo o máximo e, ao mesmo tempo, inalcançável, pois na época morava em Jacarepaguá no Rio de Janeiro e o bairro da Lagoa representava milhas e milhas de distância. Essa crença perdurou por quase duas décadas e a representação que eu tinha do remo era a mesma que me casar com o Tom Cruise, ou seja, inacessível.

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