Mais uma vez houve nova edição da Regata do Futuro e eu decidi participar, afinal já tinha passado por esse processo e vivenciado a questão da competitividade, mas não era bem assim.
Eu estava no clube novo treinando com a equipe do master e não estava preocupada em ganhar ou perder. Estava somente preocupada em remar e aperfeiçoar, cada vez mais, a minha técnica que era bem fraquinha.
Como eu estava no processo de clube novo ainda não estava sabendo direito como as coisas estavam funcionando, mas comecei a treinar com o meu técnico e fiquei num processo onde eu não era da escolinha e nem da pré equipe. Mas estava treinando focada na regata e em melhorar tempo, performance e tudo mais. O que eu estava esquecendo é que o que eu gostava era remar.
Foram três semanas de treino para a regata e percebia que eu não estava muito confortável nos treinos. Achava que o nível de competitividade estava alto e eu estava me identificando com aquilo e, com isso, entrei novamente no processo de ser competitiva, me cobrar, querer ganhar e ponto final. Eu estava obstinada a treinar o máximo, ficar com a mão machucada e continuar treinando. O curioso é que eu não estava saindo do treinando com aquela sensação de felicidade , eu só estava saindo com aquela cobrança de que eu não estava indo bem e isso, estava completamente afastada do conceito que o remo tem para mim, ou seja, o importante não era remar e sim, competir e ganhar.
A semana que antecedeu a regata foi, de fato, um terror! Cobrança, treino, tensão. Dois dias antes da regata, eu fiz um treino muito ruim e conversei com o meu técnico dizendo a ele que não estava achando que eu estivesse remando bem para a regata, pois nesse dia fiz um treino que dava medo de tão mal que eu remei. Ele me explicou que eu deveria agir de determinada forma e falou também, sobre a questão de atitude. Disse que as remadas finais precisam ser feitas com atitude. Você poderia estar morrendo, mas essas remadas tinham que ser as mais fortes.
Passei o dia inteiro pensando nessa questão da atitude. Comecei a ficar fazendo uma retrospectiva da minha vida e verificando se faltou ou faltava atitude em alguns momentos da minha vida. A palavra atitude virou tema de auto conhecimento e auto análise naquele dia. Fiquei pensando se em alguns momentos que não consegui o “primeiro lugar”foi por falta de atitude. Cheguei a pensar no momento que tive que fazer o tratamento para o câncer que consistia em tomar comprimidos de iodo radioativo e ficar trancada num quarto por dois dias, mas durante esses dois dias o objetivo era beber bastante água para eliminar ao máximo a quantidade de iodo radioativo do meu organismo e eu fiz isso tudo com uma determinação que ao final do processo, consegui reduzir ao máximo a quantidade de iodo no meu organismo. Achei que ter conseguido isso foi por obstinação e atitude. Consegui identificar, na minha cabeça, algum momento que eu tive atitude, mas meu marido disse que não era essa a relação e, talvez, ele tivesse razão.
Na véspera da regata, fiz um treino ótimo. Fiquei super feliz, pois o tempo foi bom e achei que tivesse tido atitude no final da regata. O que eu não consegui perceber é que eu estava completamente afastada do meu conceito do remo onde o importante era remar. Eu estava completamente identificada com a competição e com o “importante é ganhar”.
No dia da regata, para variar, acordei as 5 horas da manhã e não consegui mais dormir e estava super tensa e nem um pouco confortável com todo o processo. Na verdade, estava repetindo o padrão que eu tive na outra regata, com uma pequena diferente na hora que eu entrei no barco e comecei a remar, não tive aquela sensação de euforia e não estava na pilha do “importante é remar” e isso fez toda a diferença para mim. Comecei pelo processo com os árbitros que, mais uma vez, resolveram falar de forma grosseira comigo e com todas as competidoras. Ahhh! Um detalhe bem importante: A Lagoa estava completamente virada e muito ruim de remar! Bem , independente disso, quando o árbitro deu a largada e começamos a competição eu tive certeza que eu estava em outra energia. Largada ruim, remo enforcando e remando completamente irregular, ou seja, eu remei mal. Depois de uma grande enforcada que eu dei, na verdade, percebi que não havia encontrado a atitude naquela prova. Na minha cabeça estava “o importante é ganhar” e me esqueci por completo do “importante é remar”. Eu teria tido atitude se eu tivesse nessa “vibe”.
Fiquei em terceiro lugar nessa regata e quando acabou eu fiquei com a sensação “o que foi que eu fiz? Eu fiz qualquer coisa, menos fazer o que eu mais gosto que é remar”. Veio aquele turbilhão do competidor perdedor. E se… e se eu tivesse agido assim…. E a questão é que eu não me importei com o que eu deveria ter me importado, que era remar, mas não remar no sentido de competir e sim, remar no sentido de remar porque gosta e acabou. Claro que a partir do momento que você participa de uma regata, você tem uma tendência a competir, mas eu já experimentei essa sensação de somente remar. Hoje, eu não remei de verdade, não remei com o meu desejo de remar.
O curioso é que, hoje, eu tive mais que certeza que eu gosto é de remar. Tenho tanta certeza que vou comprar um barco. É sempre bom a gente transitar por essas emoções para que tenhamos oportunidade de ter contato com determinados determinados sentimentos. Talvez, se eu tivesse ganho a regata, teria sido bom, mas não sei se teria feito contato com todo esse sentimento.
Além desse processo, foi muito bom estar com as pessoas do meu antigo clube e perceber que eles estavam participando da regata por diversão. Não havia rivalidade e sim, um clima de muita amizade e cooperação. Eu acredito que o esporte tenha que ter esse lado, a competição serve para que as pessoas tenham objetivo para superar os seus limites, mas também serve para que elas fiquem mais integradas. Acho tão bom que as pessoas possam ter esses momentos. Acredito muito que o remo possa propiciar tais momentos de muito integração e felicidade.